domingo, 5 de maio de 2024

Filho de rua

Asistindo a um vídeo de músicos de rua, fiquei tentando me desenganar da ideia de que eles faziam aquilo por amor. Buscava encontrar expressões mínimas que comprovassem estarem entediados ou fossem desiludidos. Notei que meu olhar para eles era de alguém que "sabe" como eles são vistos pela sociedade. Daí percebo que meu olhar era terceirizado: empresto meus olhos para que os outros enxerguem. Minha condenação tem sempre um tom coletivo. Teria de ser um mecanismo de defesa tão adensado em minha indentidade que fosse capaz de alterar a minha percepção de mundo. Poderia ser, então, que de fato até exista quem em coletivo viva por este olhar, mas deveriam ser percebidos apenas como um dado demográfico, almas feridas espalhadas pela terra. A soberania em números não é indicador, por si só, do que é a vida. Na terra dos cegos se acorda todas as manhãs achando que o sol não nasce para eles. Está claro que eu vejo aqueles músicos com o olhar de reprovação do outro. Projeto neles a realidade que eu pensava ser a minha própria. Deveriam ser desiludidos porque eu seria, se estivesse no lugar deles. Acontece que este lugar onde os coloco (e me reponho) foi inventado por mim. Nem inventado diria, mas traduzido. Implantado bem fundo. Refletiria com tanta distorção que me pouparia de enfrentar o medo de tentar. o medo de arriscar, de tomar uma decisão por mim mesmo.

Mais uma demonstração da minha fala de "trabalho para o meu pai de graça". Não só trabalho na manutenção e sustento da ilusão de mundo dele, como também trabalho com os olhos de açoite para aqueles que ousam expatriar desse legado. Oras, mas se sou eu quem vivo, dito e comando as duas pontas deste processo, também não sou eu quem decide pela sua perpetuação? Talvez eu superestime a responsabilidade de meu pai sobre os meus atos. Longe de mim isentá-lo da culpa para que isso ocorresse. É, inequivocadamente, um legado. Não posso, contudo, dizer que meu pai tem papel em minhas decisões, apenas autoria. Sou eu quem executo o script. Não trabalho, enfim, para o meu pai. Trabalho para mim, mal e mau, por sinal. Ironicamente sou como os músicos de rua que comparecem todos os dias, apesar de não terem patrão mandando. Vão a mando próprio, respondendo a uma decisão interior. Estou em equiparidade de dedicação a quem faço olho torto. Eles dedicados à vida escolhida, enquanto me dedico a evitar escolher.

Finalizado o vídeo, outro começou logo em seguida. Não escolhi, o algoritmo quem decidiu por mim. Entre saber que não enxergo e olhar pra onde se anda persiste um trabalho de (comer) formiga. Amanhã cedo eu começo, tranquilo. Algo me diz que fará sol suficiente para o meu despertar.



quinta-feira, 6 de abril de 2023

Adorno de merda

Deixo a copa que fica no fundo da minha repartição enquanto as risadas vão se abafando a caminho da minha mesa. Não sei por quem os sinos dobram, mas sei que riem graças a mim. Durante a pausa do café, contei para uma pequena plateia de operários sobre a jornada que percorri no dia anterior quando decidi usar o banheiro do trabalho para fazer minhas necessidades. Naturalmente, por maior que tenha sido o infortúnio, não foi um relato triste que eles ouviram. A vida "como ela é", além de superestimada, quase sempre não faz sentido. Aliás, desde muito novo notei que minha cabeça não tem critérios muito bem estabelecidos quando a tarefa é catalogar acontecimentos. Se tento contar uma história, me embaralho na experiência e sensações. Me deparando sempre com um mosaico pouco fiel aos fatos, deixo agora de me cobrar por precisão e passo a acolher essa característica que hoje percebo ser a melhor, senão a única forma que aprendi a lidar com meus problemas. Principalmente os meus grandes problemas. Não considero que estejamos diante de um quadro clínico de mentira. Se invento, não é para me colocar superior, nem para me fazer mais virtuoso. Tampouco uso de subterfúgios para escapar das responsabilidades. Se algo é acrescentado, tenho tranquilidade de que foi para o bem da história que se tornasse estória. A vida, cruel e crua, é só matéria prima. A vida é esterco. O que faço dela, e o que adubo com ela, é que há de ser contemplado como belo.


Sempre achei infeliz que colocassem beleza como adjetivo, quando poderia ter-se feito verbo. Só alguém que não saiba usar as próprias mãos daria à perfeição o conceito de ausência de necessidade de retoques. Tenho que parta de uma mentalidade ela própria imperfeita, por só saber receber, nunca criar. Sem saber para que servem as mãos, talvez exista quem nasceu pra ser boca. Corrijo: há quem tenha sido criado para ser boca. Brotou nos privilégios dos sabores, cores e texturas puras como vêm ao mundo, em seus estados divinos. Só se esforçam para acomodar sobre a língua o cacho que desce da mão de deus, o próprio. Eu, por outro lado - literalmente - me fiz trato intestinal. Enquanto as bocas imorais em minha volta devoravam até os galhos, cascas, caroços e sementes, viver, para mim, era atravessar sem o direito de me preocupar com aparência nem cheiro. Entrava tudo o que queriam, saía do jeito que podia. À boca só cabe o esforço de acomodar tanto quanto pode. O intestino, por sua vez, coloca pra fora o mínimo que não o machuque. A boca contempla escancaradamente receptiva, enquanto o intestino se contorce a expelir, abrindo espaço para o próximo saldo dos prazeres. Um relacionamento que não tem retorno nem feedback, feito trilho de trem que invariavelmente desemboca no precipício. Por nunca ninguém ter voltado para avisar, os vagões seguem lotando, dia após dia. 


Mas são muitos os que vivem de bosta. E eu, que nela engatinhei desde que fui expulso dos lábios da minha mãe, me afeiçoei ao ofício intestinal. No começo, sempre que algo muito difícil de digerir recaía sobre mim, era natural que se parasse tudo, até resolver, e ficava enfezado sem me dar conta que logo atrás vinha outro vagão lotado. Tudo o que sai das bocas se despede sem cerimônia, às pressas, porque a língua não tem memória e precisa ser lembrada constantemente do gosto das coisas. Todo vagão que parte da goela leva consigo a pulsão pelo barranco. Na monotonia onde tudo vira um bolo de nada, aprendi a colorir meu cantinho com a paleta disponível. Se me acontecesse algo difícil, me punha logo a pensar como poderia fazer alguém se divertir às custas disso. Os que me têm em convívio geralmente também foram criados nas esquinas das tripas, mas não é por altruísmo que faço o que faço. Se alguém ri do meu problema, é o problema quem faz o papel de ridículo, não eu. Pouco importa para os outros o que passei, mas muito cedo percebi que se interessavam pelo que passou por mim. Quando se aprende a viver pelo intestino, ganha a possibilidade de imaginar que são as coisas que não sabem o seu devido lugar, enquanto você permanece estável. E quando coisas que vêm e vão não têm nem valor, nem destino consagrado, não me aparenta muito errado que se adultere o resultado. Acontece com todo mundo de vez ou outra conferir o vaso depois de usá-lo e se deparar com um pontinho diferente ali no meio. Um portal no espaço-tempo que só dura até o botão da descarga, mas que te leva por um instante para longe de tudo. Ao convidar outras pessoas a conhecer a minha vida, aprendi a confeitar minhas histórias sem me preocupar em comprovar a procedência, afinal, se o destino é nada, que ao menos seja concedido antes um instante de alegoria. Uma hipérbole é um milho. Metáforas são feijões. Um cocô cravejado de coisinhas interessantes é um convite para admirar o inexplicável. Coisas grandes e feias de repente têm algo de interessante a ser notado. Da última caganeira fiz parábola abstrata. O tolete de ontem foi contado em epopéia de versos alexandrinos. Detalhes são suprimidos, exagerados e até inventados. Se contestam se foi bem assim que aconteceu, já não tenho medo que me exponham as incoerências. A uns, infelizmente, quando convidados a descer na vida como um tobogã de excremento, decidiram transformar tudo em exame de fezes.

 


Sentado no meu banheiro, me ponho a pensar enquanto também produzo minha próxima obra, e questiono se os dejetos seriam obrigados a acatar o criticismo de quem os rejeita. Caberia aos olhos, bocas e ouvidos alheios apontar os retoques de tudo que foi usado e condenado a um fim lívido e combalido? Se como sociedade aceitamos apagar o passado de todo defunto ao vesti-los em ternos e caixotes forrados de cetim, para daqui poucas horas cobrir tudo com terra, cometo eu algum ultraje ao colorir a minha vida antes que o breu da existência a retome para sempre? Acho pouco razoável que se debrucem sobre a minha história de bosta em busca de impurezas, como se fosse possível considerá-la menos bosta por isso. Parecem ignorar que toda vida será embolotada no útimo vagão, sem cerimônia de despedida por quem já foi e quem ainda nunca chegou, para um destino incapaz de distinguir um peido entre a história que você viveu e a mentira que eu precisei contar para embarcar aqui.

 


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Pastel murcho & Suco de tamarindo

Tem coisa que lembra casa de vó, né? 

Qualquer sujeito que tenha vivido um domingo na casa da mãe de sua mãe irá se afeiçoar com uma receita de pão de queijo ou uma árvore de calçada que já não existem mais. Rastros de terno afeto, lugares comuns da memória brasileira. Outros mais esforçados talvez consigam se lembrar do cheiro de Leite de Rosas, o tapete pendurado na parede, o silêncio dos corredores escuros ou aquele cachorro centenário que dormia o dia inteiro no azulejo frio da garagem. 





Sempre que lembro da casa de minha avó, por unanimidade a imagem de que mais me recorro é a de Nossa Senhora de Aparecida. Repare, não sou dado às liturgias. Não é que tenha ocorrido uma aparição entre os pés de mamão no fundo da casa, ou que seja creditada à santa o milagre da minha queda do muro sem nenhum arranhão. Tratava-se nada mais do que uma estatueta de gesso bem pequena, pintada à mão, que minha vó expunha na estante da sala. Vó Inácia nunca foi religiosa também, apenas saudosista: a santa era presente dado por sua mãe, minha bisa, Vó Sinhá, quando ainda em vida. Fora o seu valor sentimental, a imagem que tenho daquela imagem era ainda mais distinta pelo arco de esmalte que cobria o seu pescoço. Isso mesmo, esmalte. Três camadas de Colorama "Curva Bege". Aliás, poderia me debruçar em introdução, desenvolvimento e conclusão de uma crônica só com o meu fascínio pelos nomes de esmalte. A coisa toda era, aliás, uma aventura: desde o fato de eu estar no quarto de minha avó sem que ela soubesse, até o medo de que me pegassem com esmalte na mão — assim como pegaram o Lucas Coelho da minha turma da 2ª série fazendo xixi no banheiro feminino por engano, coitado. Nessa época eu descobri que um trauma pode levar alguém a uma dieta compulsiva de papel crepom e cola branca. "Vermelho Beijo Roubado", "Prazeres", "Canoa Natural", e o "Festa", que era metalizado! Difícil preferir os soldadinhos monocromáticos verde oliva.

E eis a razão de ser o epicentro das lembranças daquela casa gigante, logo uma santinha de 15cm: quem customizou a tal santa fui eu. 

Houve uma época em que minha irmã caçula e eu íamos para o almoço de domingo já pensando no ritual de digestão, disputando desde o carro quem iria dominar o controle da TV. Certo dia, enquanto ela cochilava com a colher de Danone na boca, vi ali a minha chance de libertação. Iria surrupiar o controle remoto, reverteria esse quadro vergonhoso de derrotas, tão vergonhoso quanto fazer xixi no sanitário errado ou gostar de esmalte quando se tem 8 anos nos anos 90. Eu nem iria mudar de canal. Pra mim, o suficiente era estar no comando. Estaríamos assistindo Temperatura Máxima como sempre, mas, desta vez, assim seria por minha vontade.

Não deu certo: a TV chiou, a minha irmã acordou, e eu levei um chute que fez da minha cabeça um projétil em linha direta contra Nossa Senhora de Aparecida. 

Ficamos imobilizados, apavorados. Era preciso reverter esse pecado, deixar de lado a animosidade ferrenha. De repente nos vi unidos pelo cagaço. A cabeça da santa, única testemunha ocular do crime, foi parar do outro lado da sala. Lembrei que em minhas experiências secretas com esmalte os dedos sempre saíam grudando. Há de servir.

Naquela noite minha avó fez sopa. No outro dia de manhã, nos levou na lojinha de R$ 1,99 e, uma semana depois, pagou pelo meu passeio da escola ao teatro.

Semana passada voltei à casa de minha avó, que fez suco de tamarindo pra acompanhar o pastel murcho que sobrou do almoço. Vi a santinha em cima da estante. Hoje velho percebo que minha carreira de restaurador de arte sacra talvez só não seja pior do que a de cronista. Usariam as santas barrocas um echarpe tão escandaloso? Percebi que minha avó nunca brigou comigo, sequer mencionou algo sobre o esmalte nesses quase vinte anos, desde então. Parece-me impossível que não tenha notado a nova moda no céu, no entanto. Mas pra essas questões, qualquer resposta é piegas. Que amor de verdade é só o de vó, eu já sabia, o que perturbava o meu sossego naqueles domingos era a curiosidade em saber se o xixi do Lucas Coelho saía ou não saía colorido — feito suco de tamarindo — por conta das toneladas de papel crepom.


Dona Nacinha.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Tão belo, tão jovem

Fim de expediente! Êta mainha, bom demais. Pensei na cerveja que eu tinha marcado com o Nicolas e o Milton mais tarde. Pensei no futebol de sábado cedo. Faria três gols, um deles de bicicleta, e pediria música no Fantástico. “I Feel Good”, do James Brown. 


Estou lá, de pé no ônibus fazendo planos para os futuros tanto próximo quanto incerto, quando pensei na janela do meu quarto. Será que eu a deixei aberta? Olhei pro céu, parecia que iria cair uma tempestade. Não é possível, seria a terceira vez que me esqueço só essa semana. Se chover, já era: meu computador estava na cama, de frente pra janela. Lembrei que ele estava ligado na tomada, poderia causar um curto circuito, justo em cima da cama. De repente, no interior da minha alma eu só conseguia pensar nas labaredas que consumiriam o meu colchão, e o cheiro, as paredes já todas pretas, a fumaça que sairia da minha janela de encontro com a chuva. Cena clássica. Todo mundo dentro de suas respectivas casas, cinco horas da tarde de uma sexta-feira chuvosa, ninguém veria nada. Imaginei o fogo passando pro meu guarda-roupas, queimando todas as minhas roupas novas que eu comprei com o que sobrou do meu décimo terceiro. A minha cadelinha, a Mel, ficaria desamparada, sem entender nada, e, num gesto de amor incondicional, saltaria em direção ao fogo para resgatar o seu dono. Seria o fim da Mel, do meu computador, das minhas roupas. 



A Dona Inês, com certeza, seria a única a notar e bateria na porta. Quando digo que tenho certeza que Dona Inês saberia, digo com razão. Vá por mim. Dona Inês é daquelas que me interfona às 23h pedindo pra que eu ligue o sugar: “você fritou um ovo hoje de manhã e agora eu não consigo dormir com esse cheiro!”. Vê se pode. Dona Inês batendo na porta sem resposta, acredito que seja mais provável que ligaria pra síndica, ao invés dos bombeiros. Desejo imensamente que o fogo alastre pro apartamento da Dona Inês, e queime o computador dela, as roupas com cheiro de Leite de Colônia que ela usa, a cadelinha Pitucha dela. Que nome horrível. Aposto que se eu fosse essa cadela, daria graças a Deus por morrer queimada e não viver mais nem um dia sendo chamada de Pitucha enquanto sinto cheiro de Leite de Colônia e ovo frito. Mas eu não sou a Pitucha, sou o dono do apartamento, e, agora, creio eu, já deve ter passado tempo suficiente para que os bombeiros chegassem. Eles bem que poderiam arrombar a minha porta! Outra cena clássica. Queria estar lá pra ver. Aposto que enquanto procurariam por possíveis vítimas – pobre Mel! – Dona Inês estaria logo atrás, palpitando ser a causa de incêndio a minha falta de dotes culinários. 



O estrago seria tanto que nunca descobririam se eu estava lá ou não, no momento do incêndio. Por pouco a edificação do bloco B do Conjunto Macunaíma não seria condenada. Na dúvida, meus familiares fariam um velório, simbólico, sem caixão. Meus amigos brindariam à minha memória. Veriam os vídeos da minha infância. Ver-me-iam na natação, diriam que eu tinha um talento pra coisa, mal usava bóias, dava pra notar claramente pelas filmagens. Minha mãe lamentaria, dizendo que, se tivesse seguido esse rumo, talvez a história fosse diferente hoje. Pessoas passariam seus cartões de crédito em maquininhas Cambotta e Cielo seria só o nome da loja de eletrodomésticos usados da vizinhança. Veriam-me com uma mamadeira assistindo ao Programa do Ratinho, comemorando o meu aniversário no Parque Mutirama, vestido de onça-pintada na apresentação de dia dos pais. Umas três ex-namoradas compareceriam (duas chorando e uma sorrindo). Semanas, meses, anos de luto. Uma perda imensurável. Quantas medalhas esse garoto ainda conquistaria para o Brasil? Quem mais saberia contar a piada do fanho que rouba patos com tanta paixão? A quem iriam odiar sem causa e motivo aparente?


Um belo dia, talvez tudo voltasse ao normal. As ex-namoradas encontrariam outro bode expiatório, minha mãe desencalharia do lance da natação, os bombeiros teriam outras portas pra arrombar, Dona Inês compraria um casal de shih tzus e os chamaria de Pinduco e Mococa. Meu apartamento provavelmente seria vendido por uma mixaria, reformado por alguma imobiliária e alugado pra algum velho fumante, para a minha vingança pós-túmulo com a bruxa da Dona Inês. Ninguém mais saberia o meu nome, ninguém mais lamentaria.

Reflexivo dentro do ônibus, quase não percebi que o próximo ponto já era o da minha rua, e acionei a descida. Cheguei em casa recebido já por alguns respingos, e ouvi um trovão cair bem perto. Subi os três lances de escadas e abri a minha porta, corri pro quarto, fechei a janela. Notei que o computador estava na mesinha de canto, do outro lado do cômodo. Mel me recebeu como sempre. Abracei-a, sentado na cama. Lá, os dois, ficamos observando a chuva bater na janela, num clima de despedida. 




Liguei, desmarquei a cerveja, o futebol. Não me conformo de ter morrido.