Asistindo a um vídeo de músicos de rua, fiquei tentando me desenganar da ideia de que eles faziam aquilo por amor. Buscava encontrar expressões mínimas que comprovassem estarem entediados ou fossem desiludidos. Notei que meu olhar para eles era de alguém que "sabe" como eles são vistos pela sociedade. Daí percebo que meu olhar era terceirizado: empresto meus olhos para que os outros enxerguem. Minha condenação tem sempre um tom coletivo. Teria de ser um mecanismo de defesa tão adensado em minha indentidade que fosse capaz de alterar a minha percepção de mundo. Poderia ser, então, que de fato até exista quem em coletivo viva por este olhar, mas deveriam ser percebidos apenas como um dado demográfico, almas feridas espalhadas pela terra. A soberania em números não é indicador, por si só, do que é a vida. Na terra dos cegos se acorda todas as manhãs achando que o sol não nasce para eles. Está claro que eu vejo aqueles músicos com o olhar de reprovação do outro. Projeto neles a realidade que eu pensava ser a minha própria. Deveriam ser desiludidos porque eu seria, se estivesse no lugar deles. Acontece que este lugar onde os coloco (e me reponho) foi inventado por mim. Nem inventado diria, mas traduzido. Implantado bem fundo. Refletiria com tanta distorção que me pouparia de enfrentar o medo de tentar. o medo de arriscar, de tomar uma decisão por mim mesmo.
Mais uma demonstração da minha fala de "trabalho para o meu pai de graça". Não só trabalho na manutenção e sustento da ilusão de mundo dele, como também trabalho com os olhos de açoite para aqueles que ousam expatriar desse legado. Oras, mas se sou eu quem vivo, dito e comando as duas pontas deste processo, também não sou eu quem decide pela sua perpetuação? Talvez eu superestime a responsabilidade de meu pai sobre os meus atos. Longe de mim isentá-lo da culpa para que isso ocorresse. É, inequivocadamente, um legado. Não posso, contudo, dizer que meu pai tem papel em minhas decisões, apenas autoria. Sou eu quem executo o script. Não trabalho, enfim, para o meu pai. Trabalho para mim, mal e mau, por sinal. Ironicamente sou como os músicos de rua que comparecem todos os dias, apesar de não terem patrão mandando. Vão a mando próprio, respondendo a uma decisão interior. Estou em equiparidade de dedicação a quem faço olho torto. Eles dedicados à vida escolhida, enquanto me dedico a evitar escolher.
Finalizado o vídeo, outro começou logo em seguida. Não escolhi, o algoritmo quem decidiu por mim. Entre saber que não enxergo e olhar pra onde se anda persiste um trabalho de (comer) formiga. Amanhã cedo eu começo, tranquilo. Algo me diz que fará sol suficiente para o meu despertar.


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