quinta-feira, 6 de abril de 2023

Adorno de merda

Deixo a copa que fica no fundo da minha repartição enquanto as risadas vão se abafando a caminho da minha mesa. Não sei por quem os sinos dobram, mas sei que riem graças a mim. Durante a pausa do café, contei para uma pequena plateia de operários sobre a jornada que percorri no dia anterior quando decidi usar o banheiro do trabalho para fazer minhas necessidades. Naturalmente, por maior que tenha sido o infortúnio, não foi um relato triste que eles ouviram. A vida "como ela é", além de superestimada, quase sempre não faz sentido. Aliás, desde muito novo notei que minha cabeça não tem critérios muito bem estabelecidos quando a tarefa é catalogar acontecimentos. Se tento contar uma história, me embaralho na experiência e sensações. Me deparando sempre com um mosaico pouco fiel aos fatos, deixo agora de me cobrar por precisão e passo a acolher essa característica que hoje percebo ser a melhor, senão a única forma que aprendi a lidar com meus problemas. Principalmente os meus grandes problemas. Não considero que estejamos diante de um quadro clínico de mentira. Se invento, não é para me colocar superior, nem para me fazer mais virtuoso. Tampouco uso de subterfúgios para escapar das responsabilidades. Se algo é acrescentado, tenho tranquilidade de que foi para o bem da história que se tornasse estória. A vida, cruel e crua, é só matéria prima. A vida é esterco. O que faço dela, e o que adubo com ela, é que há de ser contemplado como belo.


Sempre achei infeliz que colocassem beleza como adjetivo, quando poderia ter-se feito verbo. Só alguém que não saiba usar as próprias mãos daria à perfeição o conceito de ausência de necessidade de retoques. Tenho que parta de uma mentalidade ela própria imperfeita, por só saber receber, nunca criar. Sem saber para que servem as mãos, talvez exista quem nasceu pra ser boca. Corrijo: há quem tenha sido criado para ser boca. Brotou nos privilégios dos sabores, cores e texturas puras como vêm ao mundo, em seus estados divinos. Só se esforçam para acomodar sobre a língua o cacho que desce da mão de deus, o próprio. Eu, por outro lado - literalmente - me fiz trato intestinal. Enquanto as bocas imorais em minha volta devoravam até os galhos, cascas, caroços e sementes, viver, para mim, era atravessar sem o direito de me preocupar com aparência nem cheiro. Entrava tudo o que queriam, saía do jeito que podia. À boca só cabe o esforço de acomodar tanto quanto pode. O intestino, por sua vez, coloca pra fora o mínimo que não o machuque. A boca contempla escancaradamente receptiva, enquanto o intestino se contorce a expelir, abrindo espaço para o próximo saldo dos prazeres. Um relacionamento que não tem retorno nem feedback, feito trilho de trem que invariavelmente desemboca no precipício. Por nunca ninguém ter voltado para avisar, os vagões seguem lotando, dia após dia. 


Mas são muitos os que vivem de bosta. E eu, que nela engatinhei desde que fui expulso dos lábios da minha mãe, me afeiçoei ao ofício intestinal. No começo, sempre que algo muito difícil de digerir recaía sobre mim, era natural que se parasse tudo, até resolver, e ficava enfezado sem me dar conta que logo atrás vinha outro vagão lotado. Tudo o que sai das bocas se despede sem cerimônia, às pressas, porque a língua não tem memória e precisa ser lembrada constantemente do gosto das coisas. Todo vagão que parte da goela leva consigo a pulsão pelo barranco. Na monotonia onde tudo vira um bolo de nada, aprendi a colorir meu cantinho com a paleta disponível. Se me acontecesse algo difícil, me punha logo a pensar como poderia fazer alguém se divertir às custas disso. Os que me têm em convívio geralmente também foram criados nas esquinas das tripas, mas não é por altruísmo que faço o que faço. Se alguém ri do meu problema, é o problema quem faz o papel de ridículo, não eu. Pouco importa para os outros o que passei, mas muito cedo percebi que se interessavam pelo que passou por mim. Quando se aprende a viver pelo intestino, ganha a possibilidade de imaginar que são as coisas que não sabem o seu devido lugar, enquanto você permanece estável. E quando coisas que vêm e vão não têm nem valor, nem destino consagrado, não me aparenta muito errado que se adultere o resultado. Acontece com todo mundo de vez ou outra conferir o vaso depois de usá-lo e se deparar com um pontinho diferente ali no meio. Um portal no espaço-tempo que só dura até o botão da descarga, mas que te leva por um instante para longe de tudo. Ao convidar outras pessoas a conhecer a minha vida, aprendi a confeitar minhas histórias sem me preocupar em comprovar a procedência, afinal, se o destino é nada, que ao menos seja concedido antes um instante de alegoria. Uma hipérbole é um milho. Metáforas são feijões. Um cocô cravejado de coisinhas interessantes é um convite para admirar o inexplicável. Coisas grandes e feias de repente têm algo de interessante a ser notado. Da última caganeira fiz parábola abstrata. O tolete de ontem foi contado em epopéia de versos alexandrinos. Detalhes são suprimidos, exagerados e até inventados. Se contestam se foi bem assim que aconteceu, já não tenho medo que me exponham as incoerências. A uns, infelizmente, quando convidados a descer na vida como um tobogã de excremento, decidiram transformar tudo em exame de fezes.

 


Sentado no meu banheiro, me ponho a pensar enquanto também produzo minha próxima obra, e questiono se os dejetos seriam obrigados a acatar o criticismo de quem os rejeita. Caberia aos olhos, bocas e ouvidos alheios apontar os retoques de tudo que foi usado e condenado a um fim lívido e combalido? Se como sociedade aceitamos apagar o passado de todo defunto ao vesti-los em ternos e caixotes forrados de cetim, para daqui poucas horas cobrir tudo com terra, cometo eu algum ultraje ao colorir a minha vida antes que o breu da existência a retome para sempre? Acho pouco razoável que se debrucem sobre a minha história de bosta em busca de impurezas, como se fosse possível considerá-la menos bosta por isso. Parecem ignorar que toda vida será embolotada no útimo vagão, sem cerimônia de despedida por quem já foi e quem ainda nunca chegou, para um destino incapaz de distinguir um peido entre a história que você viveu e a mentira que eu precisei contar para embarcar aqui.

 


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