terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Pastel murcho & Suco de tamarindo

Tem coisa que lembra casa de vó, né? 

Qualquer sujeito que tenha vivido um domingo na casa da mãe de sua mãe irá se afeiçoar com uma receita de pão de queijo ou uma árvore de calçada que já não existem mais. Rastros de terno afeto, lugares comuns da memória brasileira. Outros mais esforçados talvez consigam se lembrar do cheiro de Leite de Rosas, o tapete pendurado na parede, o silêncio dos corredores escuros ou aquele cachorro centenário que dormia o dia inteiro no azulejo frio da garagem. 





Sempre que lembro da casa de minha avó, por unanimidade a imagem de que mais me recorro é a de Nossa Senhora de Aparecida. Repare, não sou dado às liturgias. Não é que tenha ocorrido uma aparição entre os pés de mamão no fundo da casa, ou que seja creditada à santa o milagre da minha queda do muro sem nenhum arranhão. Tratava-se nada mais do que uma estatueta de gesso bem pequena, pintada à mão, que minha vó expunha na estante da sala. Vó Inácia nunca foi religiosa também, apenas saudosista: a santa era presente dado por sua mãe, minha bisa, Vó Sinhá, quando ainda em vida. Fora o seu valor sentimental, a imagem que tenho daquela imagem era ainda mais distinta pelo arco de esmalte que cobria o seu pescoço. Isso mesmo, esmalte. Três camadas de Colorama "Curva Bege". Aliás, poderia me debruçar em introdução, desenvolvimento e conclusão de uma crônica só com o meu fascínio pelos nomes de esmalte. A coisa toda era, aliás, uma aventura: desde o fato de eu estar no quarto de minha avó sem que ela soubesse, até o medo de que me pegassem com esmalte na mão — assim como pegaram o Lucas Coelho da minha turma da 2ª série fazendo xixi no banheiro feminino por engano, coitado. Nessa época eu descobri que um trauma pode levar alguém a uma dieta compulsiva de papel crepom e cola branca. "Vermelho Beijo Roubado", "Prazeres", "Canoa Natural", e o "Festa", que era metalizado! Difícil preferir os soldadinhos monocromáticos verde oliva.

E eis a razão de ser o epicentro das lembranças daquela casa gigante, logo uma santinha de 15cm: quem customizou a tal santa fui eu. 

Houve uma época em que minha irmã caçula e eu íamos para o almoço de domingo já pensando no ritual de digestão, disputando desde o carro quem iria dominar o controle da TV. Certo dia, enquanto ela cochilava com a colher de Danone na boca, vi ali a minha chance de libertação. Iria surrupiar o controle remoto, reverteria esse quadro vergonhoso de derrotas, tão vergonhoso quanto fazer xixi no sanitário errado ou gostar de esmalte quando se tem 8 anos nos anos 90. Eu nem iria mudar de canal. Pra mim, o suficiente era estar no comando. Estaríamos assistindo Temperatura Máxima como sempre, mas, desta vez, assim seria por minha vontade.

Não deu certo: a TV chiou, a minha irmã acordou, e eu levei um chute que fez da minha cabeça um projétil em linha direta contra Nossa Senhora de Aparecida. 

Ficamos imobilizados, apavorados. Era preciso reverter esse pecado, deixar de lado a animosidade ferrenha. De repente nos vi unidos pelo cagaço. A cabeça da santa, única testemunha ocular do crime, foi parar do outro lado da sala. Lembrei que em minhas experiências secretas com esmalte os dedos sempre saíam grudando. Há de servir.

Naquela noite minha avó fez sopa. No outro dia de manhã, nos levou na lojinha de R$ 1,99 e, uma semana depois, pagou pelo meu passeio da escola ao teatro.

Semana passada voltei à casa de minha avó, que fez suco de tamarindo pra acompanhar o pastel murcho que sobrou do almoço. Vi a santinha em cima da estante. Hoje velho percebo que minha carreira de restaurador de arte sacra talvez só não seja pior do que a de cronista. Usariam as santas barrocas um echarpe tão escandaloso? Percebi que minha avó nunca brigou comigo, sequer mencionou algo sobre o esmalte nesses quase vinte anos, desde então. Parece-me impossível que não tenha notado a nova moda no céu, no entanto. Mas pra essas questões, qualquer resposta é piegas. Que amor de verdade é só o de vó, eu já sabia, o que perturbava o meu sossego naqueles domingos era a curiosidade em saber se o xixi do Lucas Coelho saía ou não saía colorido — feito suco de tamarindo — por conta das toneladas de papel crepom.


Dona Nacinha.

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