Fim de expediente! Êta mainha, bom demais. Pensei na cerveja que eu tinha marcado com o Nicolas e o Milton mais tarde. Pensei no futebol de sábado cedo. Faria três gols, um deles de bicicleta, e pediria música no Fantástico. “I Feel Good”, do James Brown.
Estou lá, de pé no ônibus fazendo planos para os futuros tanto próximo quanto incerto, quando pensei na janela do meu quarto. Será que eu a deixei aberta? Olhei pro céu, parecia que iria cair uma tempestade. Não é possível, seria a terceira vez que me esqueço só essa semana. Se chover, já era: meu computador estava na cama, de frente pra janela. Lembrei que ele estava ligado na tomada, poderia causar um curto circuito, justo em cima da cama. De repente, no interior da minha alma eu só conseguia pensar nas labaredas que consumiriam o meu colchão, e o cheiro, as paredes já todas pretas, a fumaça que sairia da minha janela de encontro com a chuva. Cena clássica. Todo mundo dentro de suas respectivas casas, cinco horas da tarde de uma sexta-feira chuvosa, ninguém veria nada. Imaginei o fogo passando pro meu guarda-roupas, queimando todas as minhas roupas novas que eu comprei com o que sobrou do meu décimo terceiro. A minha cadelinha, a Mel, ficaria desamparada, sem entender nada, e, num gesto de amor incondicional, saltaria em direção ao fogo para resgatar o seu dono. Seria o fim da Mel, do meu computador, das minhas roupas.
A Dona Inês, com certeza, seria a única a notar e bateria na porta. Quando digo que tenho certeza que Dona Inês saberia, digo com razão. Vá por mim. Dona Inês é daquelas que me interfona às 23h pedindo pra que eu ligue o sugar: “você fritou um ovo hoje de manhã e agora eu não consigo dormir com esse cheiro!”. Vê se pode. Dona Inês batendo na porta sem resposta, acredito que seja mais provável que ligaria pra síndica, ao invés dos bombeiros. Desejo imensamente que o fogo alastre pro apartamento da Dona Inês, e queime o computador dela, as roupas com cheiro de Leite de Colônia que ela usa, a cadelinha Pitucha dela. Que nome horrível. Aposto que se eu fosse essa cadela, daria graças a Deus por morrer queimada e não viver mais nem um dia sendo chamada de Pitucha enquanto sinto cheiro de Leite de Colônia e ovo frito. Mas eu não sou a Pitucha, sou o dono do apartamento, e, agora, creio eu, já deve ter passado tempo suficiente para que os bombeiros chegassem. Eles bem que poderiam arrombar a minha porta! Outra cena clássica. Queria estar lá pra ver. Aposto que enquanto procurariam por possíveis vítimas – pobre Mel! – Dona Inês estaria logo atrás, palpitando ser a causa de incêndio a minha falta de dotes culinários.
O estrago seria tanto que nunca descobririam se eu estava lá ou não, no momento do incêndio. Por pouco a edificação do bloco B do Conjunto Macunaíma não seria condenada. Na dúvida, meus familiares fariam um velório, simbólico, sem caixão. Meus amigos brindariam à minha memória. Veriam os vídeos da minha infância. Ver-me-iam na natação, diriam que eu tinha um talento pra coisa, mal usava bóias, dava pra notar claramente pelas filmagens. Minha mãe lamentaria, dizendo que, se tivesse seguido esse rumo, talvez a história fosse diferente hoje. Pessoas passariam seus cartões de crédito em maquininhas Cambotta e Cielo seria só o nome da loja de eletrodomésticos usados da vizinhança. Veriam-me com uma mamadeira assistindo ao Programa do Ratinho, comemorando o meu aniversário no Parque Mutirama, vestido de onça-pintada na apresentação de dia dos pais. Umas três ex-namoradas compareceriam (duas chorando e uma sorrindo). Semanas, meses, anos de luto. Uma perda imensurável. Quantas medalhas esse garoto ainda conquistaria para o Brasil? Quem mais saberia contar a piada do fanho que rouba patos com tanta paixão? A quem iriam odiar sem causa e motivo aparente?
Um belo dia, talvez tudo voltasse ao normal. As ex-namoradas encontrariam outro bode expiatório, minha mãe desencalharia do lance da natação, os bombeiros teriam outras portas pra arrombar, Dona Inês compraria um casal de shih tzus e os chamaria de Pinduco e Mococa. Meu apartamento provavelmente seria vendido por uma mixaria, reformado por alguma imobiliária e alugado pra algum velho fumante, para a minha vingança pós-túmulo com a bruxa da Dona Inês. Ninguém mais saberia o meu nome, ninguém mais lamentaria.
Reflexivo dentro do ônibus, quase não percebi que o próximo ponto já era o da minha rua, e acionei a descida. Cheguei em casa recebido já por alguns respingos, e ouvi um trovão cair bem perto. Subi os três lances de escadas e abri a minha porta, corri pro quarto, fechei a janela. Notei que o computador estava na mesinha de canto, do outro lado do cômodo. Mel me recebeu como sempre. Abracei-a, sentado na cama. Lá, os dois, ficamos observando a chuva bater na janela, num clima de despedida.
Liguei, desmarquei a cerveja, o futebol. Não me conformo de ter morrido.


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